Triste história de insônia
A vida de Michael Jackson mostra um caso extremo de insônia maltratada

No último dia 23 de abril, estreou nos cinemas brasileiros a cinebiografia “Michael”. Salas lotadas e pessoas com figurinos nas filas lembraram a minha geração o fenômeno que foi Michael Jackson nos idos da nossa infância. Assisti ao filme e me junto ao grupo que considera os trechos musicais fenomenais e olha com pouco entusiasmo para as sequências que abordam a vida pessoal de Michael. Três aspectos, entretanto, chamaram minha atenção.
O primeiro foi o processo de desenvolvimento do artista, guiado por uma rotina de trabalho extenuante e pela busca obsessiva da perfeição; segundo, o início de um provável transtorno dismórfico corporal, já associado a intervenções cirúrgicas; terceiro, o acidente que causou queimaduras de segundo e terceiro graus no couro cabeludo e teria contribuído para o uso problemático de opioides.
Embora o filme se encerre em 1988, esses três aspectos parecem pavimentar parte do caminho que levaria ao desfecho fatal em junho de 2009. Michael viria a desenvolver um quadro grave de insônia que, a menos de três semanas da estreia dos shows “This Is It”, o atormentava de forma insuportável. A ansiedade antecipatória, o receio sobre a própria performance e a necessidade de entregar um espetáculo perfeito estavam no auge.
Segundo depoimentos, havia meses vinha recebendo propofol, um anestésico de uso hospitalar, para conseguir dormir. Seu médico afirmou que tentava reduzir a dependência do astro em relação ao anestésico. Para isso, no dia da morte, já havia administrado benzodiazepínicos, sem sucesso. Michael, perturbado por ansiedade e privação de sono, implorava pela droga. A estreia estava próxima e ele acreditava que sua performance dependia de conseguir dormir.
O anestésico foi administrado. Sem monitorização adequada, sem estrutura de emergência e sob risco de depressão cardiorrespiratória, Michael não despertou. A causa oficial foi intoxicação aguda pelo anestésico, com contribuição de benzodiazepínicos.
A história de Michael Jackson mostra um caso extremo de insônia maltratada, em que toda a expectativa foi colocada na resolução medicamentosa de algo cujo melhor tipo de tratamento não deveria se restringir ao uso de medicações.
Dra. Lívia Gitaí
Neurologista é médica do sono pela USP e professora da Ufal e do Cesmac.