Não dê carona ao sono

Objetivo era conscientizar a população de que dormir ao volante é uma das principais causas de acidentes

Este foi o slogan da campanha liderada pela Academia Brasileira de Neurologia, em 2016. À época, nosso objetivo era conscientizar a população de que dormir ao volante é uma das principais causas de acidentes com mortes nas rodovias, além de divulgar estratégias de prevenção.

Dez anos depois, o problema continua. A família vai passar o feriado em outra cidade, e o pai decide pegar a estrada de madrugada para chegar mais cedo. Às 4h da manhã, ele dirige em uma rodovia após ter dormido, na noite anterior, três horas menos do que o habitual. O motorista de caminhão resolve estender o tempo de trabalho e já está dirigindo há 18 horas. A médica sai do plantão noturno às 7h da manhã. Em um plantão em que dormiu menos de duas horas, mas ainda vai enfrentar uma hora de estrada para voltar para casa. Situações corriqueiras. O sono à espreita.

Um relatório oficial do European Road Safety Observatory aponta que a fadiga do condutor pode estar envolvida em 10% a 20% dos acidentes de trânsito e que esses acidentes tendem a ser mais graves. No Brasil, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), de 2020 a 2025, a causa “condutor dormindo” apareceu em quase 19.000 acidentes em rodovias federais, com cerca de 2.500 mortes. Embora represente 4,6% dos acidentes, concentrou 7,5% dos óbitos, sugerindo maior gravidade relativa. Os acidentes se concentraram na madrugada e no início da manhã e tiveram como formas predominantes saída de pista, colisão com objeto, capotamento e tombamento.

Esses números provavelmente são subestimados, pois não há um marcador objetivo para detectar sonolência após um acidente, como ocorre com o etilômetro nas situações de embriaguez. No banco de dados da PRF, por exemplo, há categorias que têm forte interface com sonolência, mas são contabilizadas à parte: ausência de reação do condutor, responsável por 16,8% dos acidentes, e reação tardia ou ineficiente, por 19,7%. Se parte desses casos tiver relação com sonolência, a participação do sono nos acidentes de trânsito pode ser muito maior do que indicam os registros formais de “condutor dormindo”.

A sonolência ao volante é traiçoeira e causa acidentes mais graves, com poucas chances de defesa. Não se arrisque. Não dê carona ao sono.

Dra. Lívia Gitaí

Neurologista é médica do sono pela Universidade de São Paulo e professora da Universidade Federal de Alagoas e do Cesmac