Transtornos do Sono

Os distúrbios do sono são classificados segundo a Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono, atualmente na vigência da terceira edição (CIDS-3). Na CIDS-3, há mais de 50 tipos de distúrbios do sono. Vejamos alguns:

APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS)

O que é AOS?

A AOS é uma doença caracterizada por episódios de obstrução da faringe durante o sono. Dessa forma, o ar não consegue chegar aos pulmões para uma respiração adequada, o que leva a despertares frequentes e a quedas das taxas de oxigênio no sangue. O sono torna-se fragmentado e superficial e o corpo sofre com essa dificuldade para respirar.

A AOS é uma doença frequente?

Sim, bastante frequente. Na cidade de São Paulo, por exemplo, foi detectada prevalência de 32,8% na população geral.

Quais são as manifestações clínicas mais comuns na AOS?

Manifestações que ocorrem durante o sono:

• Ronco – é a manifestação mais comum da AOS e, frequentemente, a única manifestação noturna. Portanto, se você ronca, é importante que você converse sobre isso com o seu médico.
• Outras - dificuldade para dormir, sono agitado, episódios de sensação de sufocação ou de engasgos, azia, pausas respiratórias observadas pelo companheiro de cama e noctúria (necessidade de acordar para urinar).

Manifestações que ocorrem durante o dia:

• Sonolência – facilidade para cochilar se ficar sentado ou deitado. Às vezes, a pessoa não percebe que tem sonolência excessiva ou considera um sinal de que dorme bem (“durmo bem até demais”)
• Cansaço
• Alterações de humor e irritabilidade
• Dificuldades de atenção, concentração e memória
• Outras – dor de cabeça, impotência sexual, entre outras.

Quais são as consequências da AOS?

Além dos transtornos decorrentes das manifestações clínicas noturnas e diurnas, estudos em todo o mundo têm demonstrado que a AOS aumenta o risco de:

• Pior qualidade de vida
• Acidentes de trânsito e acidentes de trabalho
• Doenças como hipertensão arterial sistêmica, angina, infarto agudo do miocárdio, AVC (derrame), arritmias cardíacas, diabetes mellitus e demência.

Portanto, se você acha que tem AOS, é importante que busque diagnóstico e tratamento adequados.

Como é feito o diagnóstico de AOS?

O diagnóstico de AOS requer a realização de:
• Avaliação clínica – consulta médica para avaliar a presença de manifestações clínicas e doenças associadas
Polissonografia – é um exame essencial para o diagnóstico e para estabelecer a gravidade da AOS.

Como deve ser feito o tratamento da AOS?

A forma de tratamento depende da gravidade da AOS e do perfil clínico do paciente.

As principais modalidades de tratamento são:

• Aparelho de pressão positiva contínua (CPAP) – é considerado o melhor tratamento para os casos de AOS moderada e grave, sendo indicado também em alguns casos de AOS leve. Trata-se de um aparelho que impede a obstrução da faringe através da utilização de uma máscara sobre o nariz ou sobre o nariz e a boca. O aparelho deve ser utilizado apenas durante o sono, após orientação médica adequada. Para saber mais sobre o tratamento com CPAP, clique aqui.
• Aparelho intraoral (AIO) - indicado principalmente nos casos de ronco primário (ronco sem AOS) e em alguns casos de AOS leve a moderada. O tipo mais indicado é o aparelho de reposicionamento mandibular, também utilizado apenas durante o sono. O tratamento com AIO só deve ser realizado após avaliação médica adequada e sob a supervisão de odontólogo com formação específica em odontologia do sono.
• Cirurgia – alguns tipos de cirurgia podem ser indicados em situações muito específicas, principalmente em casos de alterações craniofaciais evidentes.
• Medidas clínicas – perda de peso se há obesidade ou sobrepeso; evitar uso de bebidas alcoólicas, sedativos ou relaxantes musculares antes de dormir; terapia posicional. Em geral essas medidas são complementares aos outros tipos de tratamento.

INSÔNIA

O que é insônia?

A insônia é um distúrbio do sono em que a pessoa apresenta dificuldade para iniciar e/ou para manter o sono, apesar de ter oportunidade e circunstâncias adequadas para dormir, associada a repercussões diurnas.

Quais as manifestações clínicas da insônia?

A dificuldade para dormir se manifesta como demora para iniciar o sono, despertares noturnos e/ou despertar precoce (acordar muito cedo e não conseguir mais voltar a dormir).

As manifestações diurnas incluem cansaço, redução da motivação, irritabilidade, sonolência, maior propensão a erros e acidentes, preocupações com o sono, déficits de concentração ou de memória, entre outros.

Há frequente associação com depressão, ansiedade e outras condições clínicas.

A insônia é uma doença frequente?

A insônia é uma das condições clínicas mais frequentes, afetando cerca de 10 a 30% da população geral.

Como é feito o diagnóstico de insônia?

Para o diagnóstico, o mais importante é uma consulta médica criteriosa onde devem ser avaliados, por exemplo, os sintomas, os hábitos de vida, as condições gerais de saúde, a presença de sintomas depressivos e ansiosos e os tipos e horários das medicações utilizadas.
O exame de polissonografia pode ser necessário em algumas situações, como nos casos em o médico suspeita de que a pessoa sofra também de outro transtorno do sono.

Como deve ser feito o tratamento da insônia?

O tratamento da insônia deve ser individualizado de acordo com o perfil do paciente. Algumas informações importantes:
• O tratamento da insônia pode ser bastante efetivo se realizado de forma adequada
• As técnicas de tratamento não-farmacológico da insônia são as mais efetivas. Os principais protocolos internacionais e o protocolo brasileiro recomendam a terapia cognitiva comportamental (TCC) como o tratamento de primeira linha para tratamento da insônia. A TCC para insônia emprega técnicas especiais que exigem formação específica na área.
• O uso de medicações pode ser necessário em alguns casos, mas só deve ser realizado sob rigorosa supervisão médica.
Para prevenção e tratamento da insônia, é fundamental observar as medidas para um sono saudável

SÍNDROME DAS PERNAS INQUIETAS (SPI)

O que é SPI/DWE e quais as manifestações clínicas?

Na SPI/DWE há uma vontade irresistível de mover as pernas que melhora ao movimentá-las, como ao ficar caminhando ou esticando as pernas.

Esses sintomas se iniciam à tardinha ou à noite, quando a pessoa está sentada ou deitada, descansando, assistindo TV, lendo, na igreja, etc. Caso a pessoa não possa mexer as pernas, os sintomas vão aumentando e se tornando cada vez mais desagradáveis.

Frequentemente a SPI/DWE causa dificuldades para dormir.

A SPI/DWE é uma doença frequente?

Sim, no Brasil, afeta cerca de 6,4% da população geral.

Qual a causa da SPI/DWE?

Há uma influência genética, por isso é comum que outras pessoas da família também apresentem SPI/DWE.

Em alguns casos a SPI/DWE está associada a doenças como insuficiência renal crônica e anemia ferropriva ou ao uso de remédios (como antipsicóticos e remédios para depressão, remédios para enjôo, para tireóide, entre outros).

Algumas mulheres apresentam SPI/DWE durante a gestação.

Como é feito o diagnóstico de SPI/DWE?

O diagnóstico de SPI/DWE é clínico. Uma consulta médica pode confirmar que os sintomas são mesmo por SPI/DWE e não por outras condições como câimbras noturnas e desconforto posicional.
Importante: ficar movimentado os pés de forma rápida e automática, sem notar que está fazendo isso, NÃO É SPI/DWE.

Como deve ser feito o tratamento da SPI/DWE?

O tratamento não-farmacológico inclui cultivar medidas para um sono saudável. Para pessoas com sintomas frequentes e intensos, há também diferentes tipos de medicamentos que podem ser prescritos pelo médico, dependendo de cada caso.

NARCOLEPSIA

O que é Narcolepsia?

A narcolepsia é uma doença do sistema nervoso caracterizada principalmente por sonolência excessiva.

Há dois tipos de narcolepsia: a narcolepsia tipo 1 (narcolepsia com cataplexia) e a narcolepsia tipo 2 (narcolepsia sem cataplexia).

Quais as manifestações clínicas da Narcolepsia?

Na narcolepsia, a sonolência costuma ser mais ou menos constante, piorar em situações monótonas, e melhorar bastante logo após um breve cochilo. Geralmente há ataques de sono: episódios involuntários e súbitos de sono em momentos inapropriados e imprevisíveis.

Na narcolepsia tipo 1, ocorrem episódios de cataplexia, que é a perda súbita e bilateral do tônus muscular provocada por emoções fortes geralmente positivas como alegria ou surpresa. A perda do tônus pode variar de leve sensação de fraqueza apenas em pálpebras, canto da boca, pescoço ou joelhos até a um colapso corporal completo. Dura segundos a vários minutos, com recuperação imediata e completa.

Na narcolepsia também podem ocorrer:
• Alucinações hipnagógicas e/ou hipnopômpicas – são alucinações que ocorrem quando estamos iniciando o sono (hipnagógicas) e/ou ao acordar (hipnopômpicas). Geralmente são alucinações visuais com imagens de pessoas, animais ou objetos por segundos até alguns minutos. Também podem ser auditivas (sons simples, frases e até melodias), sensações de toque, de mudança de posição de partes do corpo e até mesmo sensação de levitação ou de experiências extracorpóreas. Como as sensações parecem muito reais, podem ser assustadoras.
• Paralisa do sono – ocorre ao acordar ou, menos frequentemente, no início do sono. O indivíduo está consciente e respirando, mas não consegue falar nem mexer sequer os dedos. Ao tentar gritar, só consegue emitir sussurros ou gemidos baixinhos. Algumas pessoas apresentam uma certa sensação de sufocamento durante o episódio e, em 25 a 75% dos casos, há alucinações associadas.
• Fragmentação do sono noturno – despertares frequentes

Qual a prevalência da narcolepsia?

A narcolepsia afeta cerca de 20 a 50 pessoas a cada 100.000 indivíduos.

Qual a causa da narcolepsia?

Na narcolepsia tipo 1, a associação de predisposição genética a fatores ambientais leva o sistema de defesa do organismo a destruir um grupo de neurônios do hipotálamo que produzem hipocretina, substância muito importante na estabilização da vigília e do sono.

A causa da narcolepsia tipo 2 ainda não é bem estabelecida.

Como é feito o diagnóstico de Narcolepsia?

O diagnóstico de narcolepsia envolve a realização de avaliação clínica, de polissonografia de noite inteira e do teste das latências múltiplas do sono.

O diagnóstico de narcolepsia tipo 1 requer a presença de:

• Sonolência excessiva diária por mínimo de 03 meses
• Cataplexia
• Resultado característico no teste das latências múltiplas do sono
A ausência de cataplexia, torna mais difícil o diagnóstico de narcolepsia tipo 2. São necessários a presença de sonolência excessiva diária por mínimo de 03 meses e os resultados característicos no teste das latências múltiplas do sono, mas precisamos ser bastante criteriosos na investigação de outras potenciais causas desses achados como privação de sono comportamental ou decorrente de outros transtornos do sono e uso e abstinência a substâncias.

Tratamento

O tratamento da narcolepsia envolve medidas comportamentais e uso de medicamentos e deve ser orientado por médico com formação específica em medicina do sono.